terça-feira, 9 de dezembro de 2008


07 Dezembro 2008 - 00h30


Perturbação mental: BipoIaridade afecta dois por cento dos portugueses

200 mil bipolares


Em Portugal, cerca de 200 mil pessoas, de ambos os sexos, sofrem de doença bipolar.


Tradicionalmente conhecida por doença maníaco-depressiva, trata-se de uma doença mental de "perturbação do foro neurológico em que há uma alegria excessiva ou uma depressão profunda", explica José Jara, psiquiatra e director do Serviço de Psiquiatria do Hospital Júlio de Matos, em Lisboa.

O próprio termo bipolar expressa os dois diferentes tipos de humor, isto é, o da ‘mania’, caracterizado por uma profunda excitação, e o da depressão, onde o doente se sente muito abatido. Esta última fase referida é identificada como sendo "a mais perigosa, uma vez que é aquela em que se verifica uma maior taxa de suicídio". No entanto, para além destas duas fases há outras pelas quais o doente pode passar. As causas do aparecimento da doença não são específicas, uma vez que variam consoante o tipo de personalidade e a própria pessoa.
No entanto, os problemas do dia-a-dia podem – e muito – contribuir para o aparecimento de casos de bipolaridade.


A idade não é um factor preponderante para uma melhor compreensão da doença, uma vez que "não há uma faixa etária específica para o aparecimento da mesma", refere o especialista, salientando que "existe uma maior ocorrência de casos na fase da adolescência".

A doença bipolar – que segundo o psiquiatra José Jara é "uma doença que interfere muito com a dinâmica familiar do paciente, com a sua vida profissional e com as relações interpessoais" – não tem cura. Porém, o tratamento tem uma importância muito significativa na estagnação da bipolaridade pois "evita o aparecimento de crises, estabilizando-as".

O director do Serviço de Psiquiatria do Hospital Júlio de Mato frisa ainda que na maioria dos casos se verifica "um abandono do uso da medicação, pois os pacientes pensam que já estão curados mas, obviamente, as crises voltam sempre a aparecer".

DOENTES ALVO DE ESTIGMAS E DE PRECONCEITOS SOCIAIS

O doente bipolar tem de lutar diariamente contra os estigmas e preconceitos sociais, muitas vezes consequência da agressividade que se manifesta durante a depressão. Quando entra nessa fase mais crítica, ou seja, na fase depressiva, o doente tem tendência a se isolar dos amigos, colegas e até mesmo dos familiares. Esse afastamento deve-se, na maioria das vezes, ao facto de o doente sentir fobia em relação ao mundo exterior. Ao se isolar, pensa que irá resolver os grandes conflitos interiores com que se depara. Porém, para além de não conseguir resolver estes conflitos, o doente vai perdendo amigos, acabando por ficar cada vez mais só. Este facto deve-se, segundo o psiquiatra José Jara, ao facto "de as pessoas se assustarem com as crises depressivas dos bipolares, que chegam a ter comportamentos agressivos para com as mesmas."

MEDICAMENTOS NO MERCADO

Os medicamentos estabilizadores de humor são essenciais na terapêutica preventiva das fases depressivas e eufóricas, permitindo a muitos doentes o controlo da perturbação bipolar através de uma prevenção das crises. O lítio, comercializado no País através do medicamento Priadel, o valproato, presente nos medicamentos Diplexil R e Depakine, e a carbamazepina, através do Tegretol, são ajudas no tratamento do doente.

REFORMA NA SAÚDE MENTAL

Foi aprovado em Outubro do ano passado, em Conselho de Ministros, o Plano Nacional da Saúde Mental, a vigorar até 2016, cuja prioridade consiste na descentralização dos serviços prestados aos doentes, para uma maior integração nas famílias. Também se prevê a criação ou recuperação de unidades de psiquiatria que não têm estado a funcionar devido a deficiência de recursos humanos ou, até mesmo, por falta de condições.

"MOTIVADOS PARA A CURA" (Delfim Oliveira, Associação Doentes Depressivos e Bipolares)

Correio da Manhã – Em que consiste a Associação de apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares?
Delfim Oliveira – A ADEB – que já existe desde 1991 – constitui-se como uma ferramenta elementar na recuperação de um doente bipolar ou depressivo, pois tentamos sempre entender o doente, quer seja bipolar ou depressivo, e ajudá-lo na recuperação de crises.
– Como é que o doente bipolar procura a Associação?
– Esse contacto existe através do aconselhamento que o psiquiatra dá ao doente, pois há uma grande cooperação entre os profissionais de Saúde e a ADEB.
– Essa procura é um incentivo na recuperação do doente?
– Sem dúvida que sim, porque os associados sentem-se muito mais acompanhados e motivados para se tratar, o que constitui um factor bastante significativo na recuperação do doente.
"BEBI A MINHA PRÓPRIA URINA" (O meu caso: António Santana)
António Santana sempre quis ser engenheiro, mas o aparecimento da doença bipolar, aos 16 anos, estragou-lhe o sonho de infância. Consequência da falta de informação da época em relação à doença, Santana, como é conhecido no Hospital Júlio de Matos, foi internado diversas vezes em várias unidades de Saúde. Desde o Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa, até à Casa de Saúde do Telhal, em Sintra, muitas foram as torturas a que teve de se submeter. "Cheguei a levar electrochoques, jactos de água e a beber a minha própria urina", revelou ao Correio da Manhã, em tom envergonhado, dizendo que é uma fase da vida que quer "esquecer".
António Santana afirma já ter sofrido e ainda sofrer do estigma social existente em relação à doença, mas afirma "não ligar". Há cerca de dois anos que Santana não tem uma crise bipolar. Actualmente vive com uma companheira "que é para toda a vida" e dedica-se à escrita de poemas e ao teatro. n

PERFIL

António Santana tem 48 anos e já é uma cara conhecida do Hospital Júlio de Matos, em Lisboa, local onde trabalha e onde teve a primeira consulta de Psiquiatria. Sofre de doença bipolar desde os 16 anos.

BI DA DOENÇA BIPOLAR

O QUE É
A Doença Bipolar, tradicionalmente designada por Doença Maníaco-Depressiva, é uma doença psiquiátrica caracterizada por variações acentuadas do humor, com crises repetidas de depressão e ‘mania’.

SINTOMAS
Os sintomas diferem-se nas fases de depressão e ‘mania’. Na primeira, o principal sintoma é um estado de humor de tristeza e desespero. Na fase de ‘mania’, existe um estado de humor elevado e expansivo, eufórico ou irritável.

CAUSA
Os factores genéticos e biológicos (na química do cérebro) têm um papel essencial entre as causas da doença. O tipo de personalidade e o stress têm um papel importante no desencadeamento das crises.

IDADE
Pode começar em qualquer altura, durante ou depois da adolescência.

NÚMERO DE DOENTES
Cerca de 100 mil pessoas, de ambos os sexos, sofrem da doença em Portugal.

TRATAMENTO
Não há nenhum tratamento que cure a doença por completo. No entanto, há possibilidades de controlar a doença, através de medicamentos estabilizadores de humor. As crises depressivas tratam-se com medicamentos antidepressivos e as crises de mania tratam-se com antipsicóticos.

PREVISÃO DAS CRISES
A previsão das crises é variável e depende de pessoa para pessoa. Algumas têm uma ou duas crises durante toda a vida, enquanto que outras chegam a ter crises quatro vezes no mesmo ano.

NÚMEROS

100
mil pessoas em Portugal sofrem de esquizofrenia, segundo dados de estudos recentes
1,3
milhões de pessoas são atendidas no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa
2.000
milhões de pessoas no Mundo padecem de alguma doença ou perturbação mental
40
mil mortes mundiais são atribuídas às patologias psiquiátricas, como a doença bipolar
154
milhões de indivíduos, espalhados por todo o Mundo, sofrem de sintomas depressivos

DOENÇA MANÍACO-DEPRESSIVA

As zonas do cérebro mais afectadas pela doença bipolar são o córtex pré-frontal e o hipocampo.
Estriato: Ajuda o cérebro a processar recompensas
Córtex pré-frontal: Regula as emoções, a capacidade de planeamento e a motivação
Amígdala: Ajuda a reconhecer expressões faciais. As transmissões entre os neurónios aumentam em resposta aos estímulos emocionais.
Hipocampo: É um dos centros da memória. Parte dele ajuda no reconhecimento de perigos ou recompensas.
Tronco Cerebral: Onde o neurotransmissor serotonina (hormona envolvida na comunicação entre os neurónios, fundamental para a percepção do meio que rodeia o ser humano) é produzido para ser espalhado pelas diferentes partes do cérebro. Os bipolares têm menos serotonina, o que pode contribuir para uma atrofia dos neurónios e levar à depressão.

OS TRÊS ESTÁGIOS DA DOENÇA

BIPOLAR I
O doente sofre de graves fases depressivas, seguindo-se crises de ‘mania’ profundas. Pode ter também crises mistas, isto é, sintomas de depressão e de ‘mania’ ao mesmo tempo.

BIPOLAR II
O paciente tem crises depressivas graves e fases leves de elevação do humor (hipomania). As crises de elevação do humor podem não ser identificadas ou referidas porque o doente sente-se "acima do normal" com muita energia e alegria, sem perturbações óbvias.

CICLOS RÁPIDOS
O paciente tem pelo menos quatro crises por ano, em qualquer combinação de fases de mania, hipomania, mistas e depressivas. Na maioria das vezes, não chega a ter percepção de que passa pelas mesmas.

FASES DA DOENÇA

DEPRESSÃO
Tristeza é o principal sentimento vivido nesta fase. Verifica-se uma diminuição do desejo sexual e um abuso muito excessivo de álcool e das drogas, registando--se uma grande taxa de tentativas de suicídio.

FASE MANÍACA
Nesta fase o doente sente-se muito criativo, alegre, sociável e autoconfiante. Existe um aumento do apetite sexual e um abuso de álcool e substâncias. O doente chega a perder a noção da realidade.

HIPOMANIA
É caracterizada por fases leves de elevação de humor do doente, isto é, sintomas maníacos menos acentuados. As pessoas com hipomania não se julgam doentes e sentem--se bem.

MISTAS
Conjugação das fases de depressão e de ‘mania’, ou seja, o doente pode sentir-se triste e eufórico simultaneamente, sem nenhuma razão. Estas crises podem acontecer no mesmo dia.

NOTAS

HÁBITOS NORMAIS
Os bipolares conseguem ter uma vida igual à de uma pessoa que não sofra de qualquer doença mental.

DOENTES TORTURADOS
Há vinte anos a bipolaridade tinha uma má conotação e os doentes sofriam vários tipos de tortura.

DOENÇA ATINGE FAMOSOS
Jim Carrey, um conhecido actor de Hollywood, sofre de doença bipolar. Leva uma vida normal mas com precauções.
Joana Freire


in "Correio da Manhã"

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